Álvaro Magalhães em entrevista


O Navalista: Como surgiu a sua paixão pelo futebol?

Álvaro Magalhães: Desde pequenino. Eu jogava futebol em Lamego com os amigos e o meu compadre, que era um amigo na altura, incentivou-me a jogar futebol. Depois, num torneio de futebol de salão, o Cracks de Lamego viu-me a jogar e convidaram-me para ir para lá.

O Navalista: O que relembra de melhor da sua carreia como jogador?

Álvaro Magalhães: Momentos importantes: o primeiro titulo nacional pelo Cracks de Lamego, numa terra humilde, uma cidade de trabalhadores natos e que conseguiu ganhar aos tubarões da capital. Portanto, o futebol não é só na capital, nas grandes cidades. No interior há sempre grandes jogadores, há grandes homens, que formam atletas. Depois foi uma carreira boa, começando na Académica e acabando no Benfica.

O Navalista: E os momentos mais difíceis?

Álvaro Magalhães: Tive momentos difíceis também. Quando saí de Lamego, com 16 anos e habituado a estar com os pais. Claro que houve uma certa dificuldade, mas com a vontade das pessoas de Coimbra, que tentaram ajudar-me e adaptar-me a uma realidade diferente da vida.

O Navalista: Como se define como treinador?

Álvaro Magalhães: Posso dizer, com muita humildade, que sou um dos melhores treinadores em Portugal. Fui sempre um trabalhador nato, como jogador e como treinador. Sempre consegui aquilo tudo que queria à custa do meu trabalho. Muitas das vezes, cometi alguns erros, talvez pela irreverência, pela frontalidade. Normalmente, os nortenhos são frontais, são honestos e dizem na cara aquilo que pensam quando há injustiças e penso que, quem é sério e diz as coisas na cara, neste mundo não tem espaço e portanto faltou-me isso. Se eu tivesse ... como agora é habitual nas assessorias, se calhar estaria num dos melhores clubes em Portugal.

O Navalista: É gratificante para um treinador ser reconhecido por ser avaliador de jogadores e os ter lançado para outros patamares mais altos?

Álvaro Magalhães: Fico feliz e é isso que digo aqui a estes jogadores na Naval. Estou aqui mais uma vez. Eu penso que há aqui jogadores na Naval, que estavam perdidos para o futebol e que ninguém dava nada por eles e estão a renascer. Outros mais, que passaram pelas minhas mãos, no tempo do Gil Vicente. Estou-me a lembrar do Petit, Fangueiro, Guga, Ricardo Nascimento, Pedro Santos...jogadores que andavam todos na 2ª Divisão B, alguns desempregados e eu fui buscá-los e fiz deles grandes homens, grandes jogadores, numa altura do inicio da minha carreira, que era mais difícil...agora, a experiência ajuda-nos também a ter outra maneira de estar no futebol e penso que é uma felicidade para mim saber que há jogadores que eram "pequenos" e depois cresceram e que agora têm uma vida muito estabilizada.


O Navalista: Quais são as principais características que deseja ver numa equipa treinada por si?

Álvaro Magalhães: Uma equipa muito competitiva, que trabalha durante os 90 minutos, muito organizada, muito disciplinada tacticamente e que os jogadores sejam humildes dentro de campo. Uma equipa que trabalha para defender as cores e a sua instituição, que isso é importante, defender a instituição de alma e coração.

O Navalista: O futebol não é apenas técnica. Quais são, para si, as outras questões que levam um treinador e uma equipa ao sucesso?

Álvaro Magalhães: É isso mesmo. O futebol não é só técnica, porque uma equipa constituída por 11 Messis ou 11 Maradonas ou Platinis não ganha um jogo. Há que ter jogadores com todas as características: físicas  técnicas, tácticas e psicológicas. Um atleta, muitas das vezes, tem de ser forte psicologicamente para conseguir os seus objectivos. Portanto, a técnica para mim é a simplicidade como se joga à bola. Não é aquele jogador que pega na bola e dá cinquenta toques. Não! É aquele que sabe jogar de maneira simples e por isso é que eu digo que, a técnica é a simplicidade com que se joga à bola. Há que ter jogadores com boa técnica, mas o colectivo é que funciona.

O Navalista: Tendo a experiência, tanto de 1ª como 2ª Liga, quais são as principais diferenças que encontra entre ambas?

Álvaro Magalhães: Na organização, nos estádios, a 1a Liga leva mais gente ao futebol.

O Navalista: E em termos de jogo?

Álvaro Magalhães: Não há grandes diferenças. Na 1ª Liga, há melhores jogadores, mas os meus jogadores saiem das 2ª e 3ª Divisões. Se houverem jogadores que tiverem a oportunidade, também chegam à 1ª Liga. Agora, em termos de trabalho, de organização e condições de trabalho, a 1ª Liga é muito superior. Veja que, aqui na Naval, nem um roupeiro tenho, portanto, a partir daí, vê-se a diferença que há. Ainda ontem fomos ao jogo ao Porto e haviam 6 treinadores, 2 técnicos de equipamentos, tudo a funcionar em pleno. Só assim é que se consegue ter sucesso.

O Navalista: Em relação ao actual momento da Naval, acha que os objectivos que estipulou a curto prazo já foram alcançados?

Álvaro Magalhães: Estamos num bom caminho. Queremos sempre mais, esperamos mais, queremos crescer ainda mais, queremos ser mais realizados e queremos sempre mais um pouco. Todos os dias tentamos melhorar os nossos aspectos, individualmente e colectivamente  para que, domingo a domingo, possamos estar melhores e claro que, em todos os domingos possamos ter bons resultados.


O Navalista: E o que falta à Naval para conseguir alcançar uma posição mais coincidente com o valor da equipa?

Álvaro Magalhães: Precisa de mais organização. Precisa de pessoas que gostem da Naval, que estejam aqui de corpo e alma e de muito trabalho. Uma equipa profissional tem de ter aqui gente muito competente para conseguirmos estabilizar ainda mais o clube e eu digo isto porque a Naval está numa cidade fantástica, numa cidade que me diz muito. É um clube que tem gente para realizar e para estabilizar a equipa numa 1ª Liga.

O Navalista: Estamos a chegar a Janeiro, altura da reabertura do mercado. Está a pensar em reforçar a equipa? Se sim, em que posições/zonas?

Álvaro Magalhães: Tem de haver uma boa gestão financeira, porque há jogadores para determinadas posições que nem sequer temos no banco, alguns jogadores mais no aspecto ofensivo. Mas vamos tentar buscar jogadores necessários e dentro de um orçamento rigoroso, pelo menos, para que a equipa esteja mais equilibrada ou pelo menos, para refrescar o necessário, porque esta equipa, este onze que tem jogado, é um onze que está a trabalhar muitíssimo bem e precisamos de jogadores com outras características no banco, para poder dar mais ritmo. É necessário que ninguém saia no mês de Janeiro, nenhum jogador, para garantirmos até Maio, uma boa classificação.

O Navalista: Uma palavra a dar aos adeptos?

Álvaro Magalhães: Que acreditem na Naval. Eu penso que se deve dar condições às camadas da formação porque os pais, sendo assim, puxam os miúdos para jogar na Naval, que puxam os amigos para virem ver os jogos. Penso que havia de haver um melhor Marketing, de forma a que a juventude apareça mais vezes. Eu fico feliz que, nos jogos em casa, já se veja ali uma claque a puxar pela equipa. Têm sido fantásticos e isso revela que, se nos unirmos, se houver aqui uma boa organização, estou convicto que a juventude vai aparecer mais vezes no nosso estádio, puxando também os mais velhos. Deve-se tentar reunir condições...chamando as pessoas...irem às escolas, chamar os adeptos, para que possam vir apoiar a equipa, para que a Naval se mantenha por muitos e muitos anos nos campeonatos mais competitivos.

O Navalista: O que é a Figueira da Foz para si?

Álvaro Magalhães: A Figueira da Foz é quase uma segunda cidade...ou terceira cidade. Portanto, a primeira, Lamego, foi onde eu nasci, a segunda é Lisboa, onde eu vivo com a minha família e claro a terceira, a Figueira da Foz que me diz muito, porque era aqui que eu passava as minhas férias, na Figueira e na Tocha. Nunca fui para outros sítios  nunca deixei de vir para a Figueira, no tempo de Coimbra. Tenho residência aqui e a Figueira diz-me muito porque gosto e é uma cidade que...não sei se daqui a uns anos, eu com a minha mulher...porque os filhos depois começam a ter outros objectivos, eu venha viver aqui. Portanto, basicamente é a cidade onde passo as minhas férias, onde estou com os amigos e é aqui que eu me sinto bem.


Perguntas dos adeptos:

O Navalista: Que pensa da formação e do seu papel no clube que orienta?

Álvaro Magalhães: Acho que tem de haver um estudo alargado de formar a podermos dar hipóteses e possibilidades à formação. A formação necessita de apoio e começa pela própria Câmara, que terá de dar condições ao clube, para que também os miúdos não possam andar a treinar num campo pelado. Já não se usa isso! Quando saio do treino, no final da tarde, vejo tantos miúdos a treinar no campo pelado, que é uma pena, porque há muita gente que vive aqui na Figueira, os pais têm gosto e até pagam para que os miúdos venham treinar aqui na Naval. Terá que haver melhores condições de campos, balneários, com bons técnicos também para formar bons jogadores, para ajudarem esses mesmos jogadores a terem continuidade nos seniores. Por isso, há que fazer um bom levantamento para que a Naval seja forte na formação.

O Navalista: A missão dum treinador consiste somente na obtenção de resultados no intuito de garantir o lugar ou também não devia valorizar jogadores para rentabilizar o clube, sabendo-se a dificuldade actual da Naval?

Álvaro Magalhães: É evidente que os resultados é que contam. Temos de ter bons resultados para que haja confiança de todas as pessoas, mas é evidente que o objectivo também é rentabilizar, no aspecto financeiro, os próprios atletas. Penso que, os atletas vêm para aqui jovens e temos que os rentabilizar, para dar apoio para que o futebol sénior também se organize em termos financeiros. Portanto, se os jogadores são vistos de outra forma aqui, também irão dar outras garantias ao clube. Nós tentamos rentabilizar o atleta que é uma aposta do clube.

O Navalista: Gostaria de perguntar ao Mister se estaria disposto no final da época a realizar um jogo de solidariedade entre o plantel da Naval e uma equipa composta apenas por voluntários da Cruz Vermelha Portuguesa?

Álvaro Magalhães: Sem dúvida! De acordo e estou à disposição para realizarmos esse jogo.

O Navalista agradece a disponibilidade do mister Álvaro Magalhães ao conceder-nos esta entrevista.

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